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A deusa Atena ou Minerva. Fonte: http://www.turismogrecia.info. |
O ESCUDO DE MINERVA
Humberto de Campos (1886-1934)
Mão nervosa e febril, Fídias sonha e trabalha.
A alma paira, genial, nas alturas serenas,
E o cinzel, a ranger, morde a matéria, e talha
A figura imortal da Senhora de Atenas.
A alma paira, genial, nas alturas serenas,
E o cinzel, a ranger, morde a matéria, e talha
A figura imortal da Senhora de Atenas.
Trabalha. A fronte, o braço, a alta cabeça, o escudo,
E a petrina, a guardar dos seios o tesouro,
Surgem, formando a deusa, hirta e solene; e tudo
É talhado em marfim, cortado em pranchas de ouro.
E a petrina, a guardar dos seios o tesouro,
Surgem, formando a deusa, hirta e solene; e tudo
É talhado em marfim, cortado em pranchas de ouro.
E a estátua, um dia, enfim, no alto templo descansa;
O peito colossal quase ofega e respira.
E, apinhada a seus pés, sob a base da lança,
A helênia capital, sábia e inteira, delira.
O peito colossal quase ofega e respira.
E, apinhada a seus pés, sob a base da lança,
A helênia capital, sábia e inteira, delira.
Todo o que olha, em respeito, aqueles trinta e nove
Pés de altura de Atena, evoca os tempos, quando,
Assim bela, ao surgir da cabeça de Jove,
Pela glória da Hélade andara batalhando.
Pés de altura de Atena, evoca os tempos, quando,
Assim bela, ao surgir da cabeça de Jove,
Pela glória da Hélade andara batalhando.
O gesto, a calma, o olhar, a firmeza do porte,
A face do broquel e a lança em que se apoia,
Dizem bem quem levou o estrago, a angústia, a morte,
Pelo braço do grego, às falanges de Troia.
A face do broquel e a lança em que se apoia,
Dizem bem quem levou o estrago, a angústia, a morte,
Pelo braço do grego, às falanges de Troia.
A audácia de Patroclo e a doida valentia
Da heroica multidão que os impérios invade,
Vieram da proteção e da Sabedoria
Da Senhora Imortal da Grécia e da Cidade.
Da heroica multidão que os impérios invade,
Vieram da proteção e da Sabedoria
Da Senhora Imortal da Grécia e da Cidade.
E ei-la, ali, bela e só, como vinda doutra era
Ao báratro sem fim das misérias terrenas,
Para ver, e abençoar com a presença severa,
As conquistas da Grécia e a grandeza de Atenas.
Ao báratro sem fim das misérias terrenas,
Para ver, e abençoar com a presença severa,
As conquistas da Grécia e a grandeza de Atenas.
O lábio que inspirara o discurso de Ulisses
E da nau de Jasão dera o modelo novo,
Era ali, belo e moço, austero e sem meiguices,
Mas, na sua mudez, a beijar seu povo.
E da nau de Jasão dera o modelo novo,
Era ali, belo e moço, austero e sem meiguices,
Mas, na sua mudez, a beijar seu povo.
De repente, porém, olhando o escudo sobre
O alvo pulso de Atena, alguém, afeito a insídias,
Espantado, e a gritar, à multidão descobre,
Na face de broquel, a figura de Fídias.
O alvo pulso de Atena, alguém, afeito a insídias,
Espantado, e a gritar, à multidão descobre,
Na face de broquel, a figura de Fídias.
O soberbo escultor, na alta febre que o inspira,
No seu orgulho hostil, de artista intemerato,
Mão tremente, olhar louco, em delírio, esculpira,
No divino broquel, seu humano retrato.
No seu orgulho hostil, de artista intemerato,
Mão tremente, olhar louco, em delírio, esculpira,
No divino broquel, seu humano retrato.
***
Assim, ó sonhador, que te acolhes na dobra
Do amplo manto de Apolo, e erras, em sonhos, a esmo,
Deixa sempre, insolente, impresso na tua obra,
Um traço da tu’alma e um pouco de ti mesmo.
Do amplo manto de Apolo, e erras, em sonhos, a esmo,
Deixa sempre, insolente, impresso na tua obra,
Um traço da tu’alma e um pouco de ti mesmo.
Esquece, ao trabalhar, as humanas perfídias,
Mostra o teu coração, esculpe a tua ideia:
Como, outrora, imortal, o retrato de Fídias
Gravado no broquel de Palas Ateneia!
Mostra o teu coração, esculpe a tua ideia:
Como, outrora, imortal, o retrato de Fídias
Gravado no broquel de Palas Ateneia!
In: CAMPOS, Humberto de. Poesias Completas. Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc., 1951. (Obras Completas, 1). p. 215-217. Ortografia atualizada.
O autor:
Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba (atual Humberto de Campos), Maranhão, em 5/10/1886 e faleceu no Rio de Janeiro em 5/12/1934. Foi membro da Academia Brasileira de Letras. Mais sobre o autor: https://pt.wikipedia.org/wiki/Humberto_de_Campos.
Santarém, PA, 16/7/2016. Leia e curta também no Wordpress.
Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba (atual Humberto de Campos), Maranhão, em 5/10/1886 e faleceu no Rio de Janeiro em 5/12/1934. Foi membro da Academia Brasileira de Letras. Mais sobre o autor: https://pt.wikipedia.org/wiki/Humberto_de_Campos.
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