“Doe,
doe sangue, doe tempo livre, seja doador, seja eterno!”
André
Gondim Pereira
Lembro-me,
dos tempos de escola primária, que todos os anos, no mês de agosto, organizava-se
o Mês do Folclore, dedicado aos mitos e crendices brasileiros: mula sem cabeça,
saci, curupira, o boto que se torna homem para seduzir mocinhas... Gostávamos muito
disso: fazíamos trabalhos tematizados, colagens em cartolina, fantasias de
personagens folclóricos etc.
Como
se sabe, o termo folclore é de origem inglesa (folklore), designando o conjunto das manifestações populares e
tradições do povo, e também o estudo dessas manifestações e tradições; mas se
engana muito quem pensa que os mitos e crendices estão estacionados no tempo e
permanecem sempre os mesmos. Dizia, e com razão, o folclorista paulista Alceu
Maynard Araújo: “O folclore é uma
vivência” (In: Medicina Rústica. São
Paulo: Cia. Editora Nacional). Portanto, assim como os mitos se transformam com o passar do tempo, adaptando-se a novos contextos, também se criam novos mitos.
Cito
como exemplo um mito recentemente surgido, a ideia de que o brasileiro nunca
desiste: “Fulano é brasileiro e não
desiste nunca!” Nada mais falso: é claro que há muitos brasileiros que nunca
desistem de nada (e alguns se tornam inconvenientes por isso), além de haver
muitas pessoas que nunca desistem e não são brasileiras; mas dizer que, por ser
brasileiro, alguém nunca desiste, é um pouco forçoso... Não parece lema ou slogan criado como parte de estratégia comercial?
Não apenas parece, como é; e é também mais um dos muitos mitos que se criaram na cultura brasileira,
formando ao lado da suposta amabilidade e do sex
appeal natos dos brasileiros, da democracia racial, da crença de que “Deus
é brasileiro” ou de que tudo é permitido abaixo da linha do Equador etc.
Calma, leitor... O
tema deste artigo, de fato, não é folclore, mitos ou crendices populares ou
criadas pela mídia; trato aqui da história real de um brasileiro que, de fato, nunca
desistiu: André Gondim.
Não
o conheci pessoalmente; aliás, só soube de sua existência após sua morte. Em dezembro de 2011, eu
acabara de instalar em meu computador o Linux Mint, sistema operacional baseado
em GNU/Linux (ou simplesmente Linux, como é mais conhecido), e navegava pela Internet em busca de informações e dicas sobre o uso
deste e outros sistemas Linux. Cheguei, então, ao blogue “Aprendendo e
compartilhando no Ubuntu” (http://andregondim.eti.br/ - atualmente inativo),
mantido por André Gondim, e vi, logo na entrada, uma nota de falecimento, com o
título “sudo apt-get install descanse-em-paz-guerreiro”, postada ali por um
amigo.

Procurei mais informações sobre ele e fiquei impressionado com o trabalho desse rapaz, que, a despeito dos problemas de saúde que enfrentou, deixou importante obra como um dos principais colaboradores e representantes, no Brasil, do sistema operacional Ubuntu, o mais conhecido dos sistemas operacionais baseados em Linux e um dos mais usados no mundo.
André Gondim Pereira nasceu em Campina Grande, Paraíba, em 1982. Mudou-se ainda na infância para Rondônia. Aos 13 anos, voltou a residir na Paraíba e, aos 21, transferiu-se para Porto Alegre, RS, em busca de tratamento de saúde – sofria de fibrose cística e acabou por submeter-se a transplante de pulmão, em 2008. Ainda no hospital, André postou em seu blogue uma mensagem de fé e esperança.
O
transplante trouxe novo alento a André Gondim, que no mesmo ano se casou e continuou, com ainda mais afinco, dedicando-se ao trabalho e ao
software livre. Em fins de 2011, porém, o órgão transplantado sofreu rejeição,
e André não teve tempo de submeter-se a novo transplante, falecendo no dia 3 de
novembro daquele ano. Tinha 29 anos.
André
tomou contato com a informática aos sete anos, mesma época do diagnóstico de sua
doença, e veio a tornar-se, como dito acima, um dos principais conhecedores do
Ubuntu; seu blogue foi, por vários anos, fonte de aprendizado para muita gente
que se iniciava no Ubuntu e no software livre.
A
morte de André Gondim Pereira constituiu grande perda para a comunidade de
usuários de Linux no Brasil, o que se demonstra pela repercussão que teve na mídia especializada e até em outros veículos, como o jornal Folha de S. Paulo. Mas seu exemplo, sua obra e seus
ensinamentos persistem e sem dúvida continuarão no coração dos que o conheceram e
daqueles que beberam de seu conhecimento.
André
Gondim dedicou sua vida ao software livre e ao Linux, assuntos de que foi grande conhecedor; dedicou também suas horas vagas à difusão desse conhecimento, sem pedir nada em troca. Foi, de fato, um brasileiro que não desistiu nunca. Verdadeiramente um
exemplo a ser seguido.
“Bonum certamen certavi, cursum consumavi, fidem servavi.”
(“Eu combati o bom combate, terminei a carreira, mantive a fé.”) – II Timóteo IV, 7.
Merecida homenagem ao André. Também o conheci (virtualmente) por conta do Ubuntu, e sempre o admirei. Sei que ele está num lugar de paz e luz.
ResponderExcluirObrigado pelo comentário. Volte sempre!
ExcluirSou primo do André. Ele realmente foi um ser iluminado e forte, que lutou por sua vida e por aquilo que acreditava. Era visível o amor que ele tinha pelo Linux e pela ideia de software livre. Mas, antes dele falecer, eu não sabia da importância e projeção que ele havia adquirido na comunidade Ubuntu. Nós da família agradecemos a linda homenagem!
ResponderExcluirObrigado pela leitura e comentário. Volte sempre!
ExcluirConvivi com André na sua adolescência. Fui sua fisioterapeuta por um bom tempo. Pessoa maravilhosa e não desistiu nunca. ❤️❤️😥😥
ResponderExcluirObrigado pela leitura e comentário. Volte sempre!
ExcluirO André, meu amigo Paraíba, era luta e inspiração. Na faculdade (senac), no trabalho (terra), nas pesquisas de Ubuntu, ele sempre dedicado, curioso e muito carinhoso com todos.
ResponderExcluirTorcemos muito pelo transplante e um dia, ele ligou dizendo que estava indo receber o órgão. Congelei! Mas ali iniciava uma nova etapa.
Falávamos muito nos nossos amores (Analu e Cris) e armamos muitas surpresas para eles; a família, a Paraíso, tantas outras coisas. Assunto não faltava.
Que saudade meu amigo! Josie
Obrigado pela leitura e comentário. Volte sempre!
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