terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Um acróstico para Pedro II

D. Pedro II na Abertura da Assembleia Geral. Tela de Pedro Américo. Fonte: Wikipédia.
Dá-se o nome acróstico a qualquer composição poética cujas letras iniciais dos versos, tomadas em sequência, formam uma palavra ou frase. Trata-se de recurso muito usado, tanto por poetas antigos quanto por modernos – Camões, como não poderia deixar de ser, empregou-o também.

Há variedades de acrósticos em que letras do interior dos versos é que são destacadas das demais no tamanho e/ou forma; em outros, combinam-se letras do início e do meio dos versos. As possibilidades são várias.

Mas o motivo deste texto é outro – ou, mais precisamente, um acróstico em particular.

O dia 2 de dezembro é o aniversário de D. Pedro II (1825-1891), último imperador do Brasil. Sua Majestade, ainda que fosse respeitado por muitos, não deixava obviamente de ter seus desafetos e detratores, os quais se serviam dos recursos disponíveis para demonstrar sua insatisfação com a monarquia.

Em 2 de dezembro de 1868, um irreverente poeta desconhecido, sob o pseudônimo Um Monarquista, conseguiu que um jornal publicasse o seguinte poema acróstico em “homenagem” ao monarca tupiniquim:
Ó excelso monarca, eu vos saúdo!
Bem como vos saúda o mundo inteiro,
O mundo, que conhece as vossas glórias...
Brasileiros, erguei-vos e de um brado
O monarca saudai, com hinos!
Do dia de dezembro o dono faustoso,
O dia que nos trouxe mil venturas!
Ribomba ao nascer d'alva a artilharia
E parece dizer em tom festivo
Império do Brasil, cantai, cantai!
Festival harmonia reine em todos;
As glórias do monarca, as sãs virtudes
Zelemos, decantando-as sem cessar.
A excelsa Imperatriz, a mãe dos pobres,
Não olvidemos também de festejar
Neste dia imortal, e que é fecundo,
O dia venturoso em que nascera,
Sempre grande e imortal, Pedro II.

Vê-se que as letras iniciais dos versos permitem ler, de cima para baixo, a frase O BOBO DO REI FAZ ANNOS – note-se que, à época, a palavra ano era, por motivos etimológicos, grafada com dois enes (por ser proveniente do latim annus, -i).

Segundo Wagner Ribeiro*, o poema causou escândalo, sensação, “sobretudo por ter sido publicado no Jornal do Comércio, sempre governista”. Talvez por isso, apenas, não pela própria composição.

Pois é... Naquela época os recursos eram mais escassos, fazer crítica política era mais difícil e perigoso, mas sempre se arrumava um jeitinho de cutucar os poderosos!

* RIBEIRO, Wagner. Antologia Luso-Brasileira. 12. ed. São Paulo: FTD, [circa 1965], página 26.

Santarém, Pará, 2/12/2014. Editado em 14/12/2015.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A tradição universitária do preconceito


Em sua obra Educación y Lucha de Clases, o psicólogo e professor argentino Aníbal Ponce cita o seguinte trecho de August Messer sobre os estudantes das universidades medievais:
"Um hino da época, de caráter blasfemo, muito popular entre os estudantes ingleses, ressalta muito claramente o caráter da classe a que pertencia o estudante medieval: Deus, tu que hás criado os camponeses para servirem aos cavaleiros e aos estudantes, que puseste em nós ódio a eles, deixa-nos viver às expensas do seu trabalho, aproveitar de suas mulheres e matá-los por fim; pelo nosso senhor Baco, que bebe e levanta o seu copo, pelos séculos dos séculos, amém".
[PONCE, Aníbal. Educação e Luta de Classes. Trad. José Severo de Camargo Pereira. São Paulo: Fulgor, 1962.]
Qualquer semelhança com as práticas violentas e discriminatórias de estudantes de conceituadas universidades brasileiras atuais não será mera coincidência; é tradição de longa data.
Aliás, para quem gosta de manter tradições, este é um prato cheio.
Já eu penso que tradições, principalmente deste tipo, devem ser quebradas. Uma sociedade ou instituição que resiste a mudanças, sob a alegação de conservar tradições, acaba por manter-se esclerosada e rançosa.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

São Jerônimo, Padroeiro dos Tradutores

"São Jerônimo" (Hendrick Bloemaert, 1601/1602-1672) - Fonte: www.wikigallery.org

Hoje, 30 de setembro, é dia de São Jerônimo e também Dia Internacional dos Tradutores. 
Por sua tarefa hercúlea de tradução da Bíblia em latim, a partir dos originais em hebraico e grego, São Jerônimo é tido como o patrono dos tradutores. Legou-nos ainda muitíssimos textos, inclusive sobre técnicas de tradução.
Dizia ele que se devem traduzir não as palavras, mas o sentido. Prescrição muito moderna, principalmente quando se sabe que, ainda hoje, há gente querendo traduzir coisas ao pé da letra...
Por isso, se você já leu algum livro traduzido, agradeça aos tradutores, que se põem à sombra dos autores para, com seu talento e a duras penas, pôr os escritos destes ao alcance de leitores de outras línguas.
Obrigado, Jerônimo!

Santarém, Pará, 30/9/2014. Editado em 30/9/2015.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Homem Primitivo

O HOMEM PRIMITIVO

Karolo Piĉ (Karel Píč), 1920-1995
Traduzido do esperanto por Júlio César Pedrosa

Dizem
que a poesia é tão antiga quanto a humanidade.
Mas isso é um erro.
Pois de todas as artes
a literatura é a última.

O homem de Heidelberg
parece que ainda não falava.
Sua única poesia era o crepitar do fogo.

O neandertal não conhecia a escrita.

E o primeiro poema do homem primitivo de Altamira
não foi um soneto,
mas um bisão,
desenhado na parede de uma caverna.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Reforma ortográfica radical

Eis que pinta por aí mais uma proposta de reforma ortográfica do português, desta vez de forma radical: querem eliminar o H, o Ç, o SS, o CH, fixar Z como única representação do fonema /z/ etc. Mas tem-se a impressão de que a proposta de reforma ortográfica é movida menos pela vontade de racionalizar a escrita do que pela preocupação com a dificuldade de dominar a escrita em português, sua acentuação gráfica e pontuação. Um resumo da proposta pode ser visto aqui: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/08/comissao-do-senado-estuda-abolir-c-ch-e-ss-da-lingua-portuguesa-4577821.html.
A ortografia do português é resultado de um processo histórico. A língua transformou-se com o tempo, o sistema fonológico reorganizou-se e a ortografia não acompanhou isso.
Escrevemos casa com S porque em latim se escrevia assim, apesar de ter pronúncia diferente; o mesmo se diga de exército, exame, cebola, face, gelo, axila, sintaxe, almoxarifado, alface, gesso, agasalho, camisa e muitíssimas outras palavras de origem latina, grega, árabe, germânica etc. Isto é exemplo de escrita etimológica, isto é, de acordo com a origem das palavras.
Grafamos chama, chapéu e chave com CH porque a pronúncia, até o século XVII (e talvez XVIII), era diferente: o CH do português representava o mesmo fonema do espanhol CH; portanto, nossos ancestrais linguísticos pronunciavam TCHEIRO, TCHAPÉU, TCHAMA, TCHAVE, FATCHADA, CATCHORRO etc. A pronúncia mudou, a grafia ficou. (Em algumas regiões rurais de Portugal, porém, ainda é funcional a oposição entre os fonemas representados por X (como em roxo) e CH (como em chapéu), o que significa que o processo de neutralização ainda se encontra em curso.)
Parece-me esta apenas mais uma proposta radical (como outras que já apareceram) de reformar a ortografia, combinando grafia com pronúncia, sem levar em conta os hábitos linguísticos dos demais países que falam português e as diversas variações decorrentes da posição ou combinatória dos fonemas; além disso, seus proponentes parecem conhecer pouco sobre a dinâmica das línguas em geral ou sobre fonologia, fonética (são áreas de estudo diferentes, apesar de próximas).
A ortografia de uma língua deve abranger todas as suas pronúncias. Todos escrevemos porta, falar, pasta e asma do mesmo jeito, apesar das muitas pronúncias possíveis dos fonemas /r/ e /s/ em português; isto é possível porque nossa grafia, apesar de apresentar elementos etimológicos, é fonológica (não fonética, o que não existe): representamos fonemas, que são modelos mentais sonoros, e não pronúncias, que são acidentais e particulares.
Se vivo estivesse, o mais polêmico gramático brasileiro do século XX, Napoleão Mendes de Almeida, com certeza diria que se trata de mais uma "reforma ortográfica para analfabetos"... Não concordo com todas as ideias de Napoleão, mas considero essa e outras propostas parecidas uma grande imbecilidade – assim mesmo, com C, pois veio do latim imbecillitas; a pronúncia romana era [imbekíllitas], e os dois LL não estão aí como enfeites, pois se trata de consoante dupla, que se simplificou na passagem do latim para o português.
Quem quiser grafar imbecilidade com S, fique a gosto.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Algumas anedotas antigas

Um advogado baixinho chegou ao tribunal para defender a causa de seu cliente. Outro advogado, vendo-o, perguntou quem era ele. Este respondeu. Então o primeiro se espantou:
"Quê? um advogado tão pequeno? Eu seria capaz de metê-lo em meu bolso!"
"De fato", tranquilamente respondeu o outro, "e então em seu bolso você teria mais sabedoria do que na cabeça".
(M. Solovjev)

Dizem que o grego Temístocles casou sua filha com um homem muito bom, mas pobre, "porque", disse ele, "minha filha precisa mais de um homem sem riqueza do que de riqueza sem homem".
(J. Seleznev)

Um sacerdote exigia que Lisandro lhe revelasse seu pior pecado.
"É você ou são os deuses que me mandam revelar minha alma?", perguntou Lisandro.
"São os deuses que lhe ordenam isso!", disse o sacerdote.
"Bem", replicou Lisandro, "vá-se embora daqui; quando os deuses me perguntarem, então eu responderei a eles".
(J. Seleznev)

A um homem que vivia dizendo que a esposa tinha 30 anos, o orador romano Cícero respondeu:
"Isso é verdade, sem dúvida, pois há 10 anos eu escuto você dizer isso."
(J. Seleznev)

In: ZAMENHOF, L. L. (Org.). Fundamenta Krestomatio de Esperanto. 2. ed. Paris: Hachette et Cie., 1905.
Tradução de Júlio César Pedrosa.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O Ararate e a arca de Noé

O monte Ararate visto de Khor Virap, Armênia - Foto de Andrew Behesnilian (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ararate)

Reportagem de uma TV, em rede nacional, ao tratar da "Operação Ararate" da Polícia Federal, diz que o nome da operação foi tirado do monte onde teria sido encontrada (?) a arca de Noé.
Que falta de cultura geral!
O monte Ararate é o local onde, segundo a tradição registrada na Bíblia (ver a narrativa no Gênesis VIII, 4), a arca de Noé atracou, após baixarem as águas do dilúvio.
Não consta que a arca de Noé tenha sido encontrada; nem mesmo se pode afirmar que existiu, nem é possível que tenha havido um dilúvio, ainda que local. Portanto, a narrativa do Dilúvio Universal (ainda que muitos não concordem com isso), insere-se no campo dos mitos fundadores. É uma história com objetivo explicativo e/ou moralizante, como muitas das narrativas contidas na Bíblia.
Porém, crendo-se ou não na narrativa do dilúvio, não faz mal nenhum consultar os textos e reproduzir a informação correta, ainda que seja baseada em um mito.
Exemplo de explicação para casos como este: A operação foi batizada com o nome Ararate, que, segundo a Bíblia, foi o monte em que a arca de Noé parou após o Dilúvio.
(O exemplozinho acima é por conta da casa.)
Ao contrário do que muitos possam pensar, a leitura da Bíblia e outros textos não se destina apenas a religiosos; conhecê-los, ainda que superficialmente, é imprescindível para entender nosso passado e nosso presente, pois tais narrativas fundaram a cultura do Ocidente.