quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Memórias da Caserna - I Parte

Escudo do extinto 39º Batalhão de Infantaria Motorizado (39 BIMtz), Quitaúna, Osasco, SP

No último dia 25 de agosto, os meios militares celebraram o Dia do Soldado, efeméride alusiva ao aniversário de nascimento de Luís Alves de Lima e Silva, mais conhecido como duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro e mais conhecida personalidade de nossa história militar. A figura do duque de Caxias é tão emblemática no âmbito militar, que a palavra caxias entrou no jargão militar brasileiro, e depois em nossa língua comum, como substantivo e adjetivo, designando o indivíduo que se mostra cumpridor assíduo, irrestrito, irrepreensível, intransigente de leis, normas, regulamentos, ordens etc. Assim, se alguém é considerado um caxias, é porque segue à risca as normas e procedimentos; o termo, porém, não deixa de ter um traço pejorativo, pois muitas vezes o indivíduo caxias não é muito bem visto por seus companheiros.
Os que me conhecem sabem que sou avesso a todo e qualquer tipo de militarismo – creio que isto é suficiente para que me explique bem. Mas passei pela experiência da caserna, quando servi ao Exército num batalhão de infantaria; assim, traço aqui algumas linhas sobre esse período curto, mas de que não me esqueci.
Há 22 anos, portanto, nestes mesmos dias, eu tinha desfilado no aquartelamento, com meu batalhão, por ocasião do Dia do Soldado, e também por ocasião dos festejos do Sete de Setembro, a principal data militar – em se tratando de paradas militares, é claro. (Os desfiles daquela época ainda se davam na Avenida Tiradentes, região Central da cidade de São Paulo.) Aproveito então o ensejo para contar um pouco do que vi e vivi nos nove meses que passei num batalhão em Osasco, SP, em 1991.
Sou da classe de 1972 (no jargão militar, isto quer dizer que nasci nesse ano) e alistei-me no início de 1990 (ano em que fiz 18 anos, portanto), na Junta de Serviço Militar do bairro do Butantã, cidade de São Paulo; depois compareci, em julho desse mesmo ano, à Central de Seleção 3 – CS3. Cheguei bem cedo, quando o dia amanhecia, como todos os demais alistados. A CS3 situa-se em Osasco, SP, na Avenida dos Autonomistas, ao lado da Vila Militar de Quitaúna e em frente ao Aquartelamento Duque de Caxias, composto, à época, por três organizações militares: o 2º Grupo de Artilharia Antiaérea – 2º GAAAe; o 4º Batalhão de Infantaria Blindado – 4º BIB; e o 39º Batalhão de Infantaria Motorizado – 39º BIMtz.
Ao chegarmos lá, sempre havia um grande grupo de soldados à espera dos conscritos, ou seja, nós que nos alistamos obrigatoriamente para o serviço militar. Os conscritos eram motivo de todo tipo de chacota dos soldados veteranos, que chegavam cedo e aproveitavam para aplicar os costumeiros trotes. Apupado por um grupo de soldados, um conscrito arrastava um cigarro amarrado a um pedaço de barbante, e gritava: “Eu puxo fumo! Eu puxo fumo! Eu puxo fumo, sargento!”. Noutro canto, um grupo observava a fila de conscritos e alguém perguntava: “Quem vai matar o Saddam Hussein? É você, guerreiro? Ou é você?” E outro respondia: “É aquele gordão ali! Vai sentar no colo do bigodudo e ploft!”.
Os que fumavam eram despojados, um a um, de seus cigarros e fósforos, “doados” aos veteranos; quem tinha cabelo comprido era ameaçado de voltar careca para casa; os que usavam brincos (e esqueciam-se de tirá-los antes de comparecer à CS) eram ridicularizados. Postos em fila, olhávamos para a nuca do que ia na frente. “Não olhem para os lados! Curiosidade é ato feminino!” Nossos braços eram examinados, creio que em busca de marcas de agulhas – indício de consumo de drogas injetáveis.
Depois de constrangedores exames médicos públicos e coletivos, em que, pelados e tremendo de frio, nos púnhamos numa fila sob as vistas de médicos e enfermeiros militares, fizemos uma prova de conhecimentos gerais e fomos convocados a retornar em janeiro do ano seguinte.
Lembro-me como se fosse ontem: era 14 de janeiro de 1991 e eu retornava à CS3, apresentando-me mais uma vez para entrevistas e exames... além dos vexames e constrangimentos a que éramos submetidos pelos soldados veteranos. Longa espera, até que fui entrevistado por um sargento.
Ele me perguntou se eu era voluntário para “servir”. Contei minha história: disse que nada tinha contra o serviço militar, mas eu não podia servir, pois trabalhava para ajudar minha mãe, já que meus pais eram separados e eu tinha dois irmãos menores. Disse-lhe que, se eu não fosse necessário para ajudar no sustento de minha casa, eu seria voluntário; naquele momento, porém, minha família dependia também de meu salário.
(Eu de fato não era voluntário; mas, para mim, o mundo militar era uma incógnita. Apesar de não ter nenhuma vontade de seguir carreira militar, eu tinha curiosidade pelo ambiente da caserna; eu queria saber como a coisa funcionava por dentro.)
O sargento – que mais tarde seria o comandante de meu grupo de combate – perguntou:
– “Qual é seu trabalho e quanto você ganha lá?”
Respondi:
– “Trabalho como office-boy e ganho um salário mínimo”.
Ele disse de pronto, na bucha:
– “Então não haverá problema. Aqui também você vai ganhar um salário mínimo; é o valor do salário de um soldado”.
Fiquei mudo. Meu argumento tinha sido desmontado: se o problema era o salário, então estava tudo resolvido – segundo a lógica do sargento, obviamente; eu poderia prestar o serviço militar e receberia o mesmo salário – ou soldo, no jargão militar. Mas o sargento se esqueceu de dizer que os cortes de cabelo e o “enxoval” (falarei disso mais adiante) seriam descontados do soldo.
Voltei duas semanas depois, dia 28 de janeiro. Mais uma fila de jovens com cara de quem não está gostando do que está acontecendo. Mais provocações e humilhações vindas de veteranos. Resultado: havia sido escolhido para servir à Pátria e deveria comparecer na segunda-feira seguinte, 4 de fevereiro, ao 39º BIMtz, ali do outro lado da avenida.
No dia 4 de fevereiro de 1991, bem cedinho, eu e os outros companheiros daquela jornada atravessávamos o Portão das Armas do 39º BIMtz. Formando um bloco, alinhados (um ao lado do outro) e cobertos (um atrás do outro), tentando manter distância equivalente, já éramos instruídos no passo ordinário e cantávamos em coro, respondendo ao sargento:
“Eu sou da nobre arma do coturno e do fuzil!
Eu sou da Infantaria, a melhor arma do Brasil!
Eu sou da Infantaria, a Rainha do Brasil!

 Nesta arma não entra quem quer,
Só quem pode e já é tradição!
Na Infantaria quem cai, cai de pé,
E se cair, levanta com o fuzil na mão!
E se cair, levanta com a vibração!”

“Quando eu morrer quero ir de FAL e de Beretta,
Chegar no inferno dando tiros no Capeta!
E o Capeta vai gritar desesperado:
- Meu Deus do Céu, tire daqui este soldado!
Quando eu morrer, quero um espaço no caixão,
P'ra ir pagando canguru e flexão!
No meu enterro, o meu caixão eu desceria,
Ao som do hino da Nobre Infantaria!”

“O quintal da minha casa
Não se varre com vassoura,
Varre com ponta de sabre
E tiros de metralhadora!”

“Trin-ta-e-no-ve!
Brasil!”
(Continua.)

8 comentários:

  1. Depois de 25 anos eu ainda tenho saudades de meu tempo la no 39 Bimtz sou da turma de 1989, bons momentos que nao voltam mais,Hoje sou da guarda de São Paulo, e ate hoje canto os hinos que cantavamos naquela época.

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    1. Vc tem a letra da canção do 39 Bimtz?

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    2. Infelizmente perdi os papéis que eu tinha com as letras das canções que aprendíamos lá, inclusive a Canção do Batalhão. As outras são fáceis de achar na Internet, mas a do 39 até agora não encontrei. Se eu achar, vou publicar aqui. Um abraço!

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  2. Obrigado por seu comentário, Paulo Pereira Silva.
    Estou sem tempo no momento, mas espero em breve publicar a segunda parte de minhas Reminiscências de Caserna. Até!

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  3. Júlio, gostaria de saber se vc teria informações de como adquirir, as fotos e vídeos dessa turma. De 1991, pois dou de 1972 e servi na mesma e gostaria muito de obter essas informações fotos e videos, fui da Primeira companhia do segundo pelota. Capitão Chacon. Meu email é: evairb@hotmail.com

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    1. Olá, Evair. Obrigado por sua visita e comentário. Vou responder por e-mail.

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  4. Caraca meu bom ,olha só o que achei voando pela net hoje esses nobres guerreiros que serviram no mesmo batalhão 39 bimtz .eu sou do ano 92
    de 1972 kkk porem sou retardatario me alistei 1 dia apos o termino em 1990 o que aconteçeu ????? me jogaram para servir em 1992 kkkkkk muitas saudades e muitos amigos deixei ou melhor a vida levou né tudo passa tudo anda para futuro ,com muito orgulho eu falo.. 39 BRASIL. ALIAS KKK CONHEÇI ALGUMAS VEZES A GUARDA NORTE DO LADO DA CELA PRA DENTRO KKKKK ,UM GRANDE ABRAÇOS A TODOS QUE FORAM PÉ DE POEIRA DO 39 BIMTZ

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    1. Obrigado por sua leitura e comentário. Volte sempre!

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